Diálogos entre “O Homem ao lado” e o Processo Terapêutico

No filme O Homem ao lado (2009) é um rombo, um buraco, um furo arquitetônico que descontrói a vitrine de badulaques, meticulosamente construída pelos membros da Boulevard 53. O casal modelo, a luxuosa invenção e o arranjo de tudo aquilo que se cunhou chamar “sucesso” é violada em ato e significação: Não é apenas a parede que cede a um golpe alheio é estilhaçada, também, a proteção que velava fragilidades, conflitos, contrastes, vazios.

A trama faz lembrar vidraças que, diariamente, maquiam realidades dolorosas. Esses dias uma paciente me dizia desejar ter a vida que postava nas redes sociais: “Ali eu sou feliz, viajo, vou a bons restaurantes e ninguém vê meus remédios, meus complexos”. Não raro máscaras e artefatos parecem dissimular aquilo que se passa no interior de um lar, de uma mente, de uma farsa, de um desejo. Já disse Bukowski (1992):

“Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado duro para ele,

e digo, fica aí dentro,

não vou deixar

ninguém ver-te”.

No longa metragem a intromissão de uma janela no cenário “ilusoriamente belo” precipita uma gama de estranhamentos, fantasias, inquietações. O casal, antes mentor de doses diárias de exibicionismo, passa a temer a própria exposição, quando esta se revela como um furo ao narcisismo: Quem afinal era ele, ela, a família, eles? O filme devolve, ainda, a questão: E se, de repente, meu castelo ruir?

“Ele me deixou”. “Eu não soube perder”. “Acabou”. “Vivo uma mentira”. “Não aguento mais”. “Viver, pra quê Dra?”.

Com frequência, a ideia de iniciar o processo terapêutico surge meio a vazios, asfixias, angústias silenciadas, dúvidas, palavras não ditas, questionamentos, acúmulos e dores que amalgamam encontros, despedidas, ira, perdas, medo, ansiedade, tristeza, saudade, agonias. Porém é também comum o bloqueio a terapia, a análise, ao cuidado de si por esta via.

Em O Homem ao lado, a hiper-estetização da casa parece dialogar com a necessidade dos seus habitantes de desvio do olhar – para um casamento estilhaçado, “eu”, o “outro” pela via da interlocução, (re) conhecimento, responsabilização.

Se debruçar sobre a própria existência, o funcionamento de sua mente, a compreensão de seu corpo, de seus afetos é um percurso que demanda mergulho, disponibilidade, ousadia, investimento, querer. Há quem passe toda uma vida em círculos repetitivos, sob pilotos automáticos que naufragam o acesso aos próprios entraves, bloqueios, labirintos, desejos. Lacan (1985) já advertia ser uma das paixões humanas a ignorância, isto é, o não querer saber sobre si, o não contato com a própria interioridade.

O processo terapêutico é, também, um mergulho, um trajeto para ampliação do olhar às possibilidades de vida, de cuidado e contato consigo, com o outro, de construção do ser em processo contínuo.

No enredo, os protagonistas Victor e Leonardo parecem refletir um recorrente paradoxo humano: a busca pelo idílico (na trama do que se postula belo, estável, correto, pleno e saudável nos pilares da felicidade, do amor, da juventude, da carreira e da transcedência), e o confronto com o prosaico (o comum, as diferenças, a hostilidade, o grotesco, a agressividade, a complexidade, o “não mostrado”, a condição de finitude e de desamparo que nos pertence).

Na concepção freudiana, o “estranho” diz também daquele que nos habita e, no entanto, é silenciado pelos ditames da cultura, das reivindicações da sociedade, dos holofotes. Por vezes, o “Outro” surge como descarga daquilo que nos pesa olhar, pelo motivo mesmo de nos compor. No filme, este engodo convoca destinos, descortina caminhos e possibilidades de transformação. Também neste sentido “O homem ao lado” dialoga com o processo terapêutico ao fomentar o movimento de devolução do olhar as nossas fissuras (maquiadas, não refletidas, guardadas, não ditas) que, numa analogia ao imperativo do personagem Victor, também merecem “um pouco de Sol”.

Texto escrito por: Caroline L.

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Bibliografia:

BUKOWSKI, C., The Last Night of the Earth Poems, 1992.

LACAN, J. (1972-1973). Livro 20: mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, 1930 [1929]. In: ______. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1996

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução, 1914. In: ______. A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Filme: O Homem ao lado | Diretores: Gastón DupratMariano Cohn | Ano: 2009

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